
Penso que é extremamente preocupante para o futuro de um município quando a principal obra, aquela mais elogiada e mais lembrada, é justamente um evento de réveillon. Estou falando do festejo realizado no distrito de Caboclo, município de Afrânio, e que foi palco para diversos vídeos elogiosos que se seguiram nas redes sociais.
Nada contra festas, muito menos contra o réveillon, acho até que Caboclo, sua população e seu passado histórico, elo de ligação com o presente e berço do município de Afrânio e de Dormentes, merece sempre estar num patamar alto. Mas duas questões precisam ser lembradas e levadas em conta:
A primeira, é que os festejos de Caboclo transcendem o réveillon. Antes, é um novenário católico apostólico dedicado ao Senhor do Bom Fim, que inicia no dia 22 de dezembro e tem seu encerramento no dia 01 de janeiro, com missa e procissão. Em nenhum momento dos diversos vídeos institucionais que foram divulgados pela gestão municipal essa referência ocorreu. Poderiam alegar, como resposta, o fato de que estamos em um Estado laico, sem religião oficial. Seria por si, uma boa justificativa, mas não. É importante lembrar que os festejos de Caboclo nasceram do novenário e não o contrário. Ou seja, meus senhores e senhoras, o ufanismo pessoal está assumindo padrões elevados de vaidade.
A segunda questão diz respeito aquele ou aquela, cidadão/ã afraniense ou visitante, que não professa a fé católica apostólica romana, os evangélicos, por exemplo.
Ora meus caros, quando a gestão municipal vai lembrar que os evangélicos também pagam impostos? Quando lembrarão que muitos do povo não deslocam para Caboclo por simplesmente não terem os meios necessários (sejam financeiros ou de transporte)?
Nesse final de ano vimos em alguns municípios festejos de réveillon simples, com bandas locais e sem o glamour apontado nos vídeos oriundos do Caboclo, quando até o gestor municipal deu um “canja”.
Nesses municípios, como Petrolina por exemplo, o volume de obras durante o ano de 2019 chegou a um patamar que convenceu a população de tal forma que não houve qualquer menção a falta de grandes nomes da “música popular sertaneja” ou do “forró estilizado universitário”, nos festejos de ano-novo. Por certo, Petrolina continuará sendo referência ainda por muitos anos.
Chegamos ao sétimo dia do ano de 2020. Ontem foi comemorado, para aqueles que professam a fé Católica, o dia de Santos Reis. Quando três reis magos descendentes de iranianos (para ódio de Donald Trump, por sinal), foram ao encontro de Maria e José para oferecerem presentes ao menino recém-nascido. Mirra, Ouro e Incenso foram depositados aos pés de Jesus como forma de agradecer pela sua vinda a terra. É o momento então de fecharmos a árvore, guardar os enfeites, desfazer o presépio e começar de fato 2020.
Esperamos que os festejos de Caboclo não fiquem apenas no pensamento secular, antes, que os ensinamentos proferidos na Capela ao Senhor do Bom Fim sejam colocados em prática no dia-a-dia das pessoas, principalmente daqueles que detém o poder para administrar o futuro da população de Afrânio.
Feliz 2020.
Prof. Enos André de Farias

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